O Brasil vai passar por uma segunda onda de coronavírus?

Por Andrés Calil em 11 de Outubro/2020 às 18:21

Atualização 14/11: Exatamente um dia após a publicação desta matéria os números começaram a subir. Estamos aguardando um período maior de tempo para realizar uma nova análise nos gráficos.

Desde o final do mês passado a notícia de segunda onda e de novos lockdowns se espalhando pela Europa assustou bastante os brasileiros. A coisa parecia estar controlada por lá e, do nada, tudo parece ir por água abaixo.

Com essa informação vem o medo: Passaremos por isso também?

Antes de mais nada, tudo que você vai ler aqui é a opinião pessoal deste que lhes escreve. A base da opinião vem da soma dos fatos com a aplicação de lógica simples. Você pode ou não concordar com o texto, e em ambos os casos, gostaria que comentasse sobre.

O que é esta segunda onda?

A epidemia começa em algum lugar, de forma crescente. Cada dia novas pessoas são  infectadas até que os números cheguem a um pico e, em seguida, comecem a descer.

A queda pode ocorrer por duas razões: medidas mais rigorosas de controle ou uma queda natural de infecções (quanto mais pessoas imunizadas, menos rápido o vírus se espalha). 

Uma vez que o número de contaminações cai, a "onda" vai se aproximando do fim. Se esses números por uma razão ou outra tornam a crescer, temos aí uma segunda onda.

Eu consigo imaginar dois motivos para uma segunda onda:

O primeiro é exatamente o que aconteceu na Europa: Houve lockdown, houveram medidas bem drásticas no combate à pandemia, porém é economicamente impossível manter essas medidas por muito tempo. Passados alguns meses as medidas precisam se afrouxar e nesse momento os números de infecções voltaram a aumentar.

O segundo motivo que, é bom frisar, não aconteceu e esperamos que não aconteça é uma grande mutação do vírus. O vírus sofre pequenas mutações o tempo todo, estima-se que já existam 8 tipos diferentes do novo coronavírus hoje. Nenhum deles é "diferente" o suficiente dos seus irmãos para reinfectar alguém que tenha desenvolvido anticorpos, mas uma mutação radical faria com que ele reiniciasse a pandemia. Essa possibilidade é remota, já que há uma chance de acontecer com praticamente qualquer vírus existente, e não temos pandemias a torto e a direito por aí.

E quais as chances de uma segunda onda no Brasil?

Eu acredito que são baixíssimas. Em todos os países onde houveram novas ondas, houve também um lockdown rigoroso. 

Esses países tomaram medidas drásticas contra o vírus, contendo quase que completamente a proliferação. Apesar disso, se uma única pessoa é capaz de infectar um país inteiro, no momento que essas medidas relaxam, a epidemia recomeça como se nada tivesse acontecido. Parece um pesadelo, mas é bem óbvio. No gráfico abaixo podemos ver que nossos primos europeus seguraram muito a contaminação entre maio e setembro.

Pegando a Itália como exemplo, ela tem uma pequena onda inicial que é eliminada graças ao lockdown. Em julho eles cancelaram o lockdown, o que faz com que a contaminação cresça um pouco e, exatamente dia 15 de outubro eles tiveram que encerrar o estado de emergência. Todas essas medidas são bem claras de visualizar no gráfico abaixo.


Devido à saída do lockdown, os países europeus estão passando agora o que o Brasil, sem lockdown, passou em agosto.

O Brasil, para o bem ou para o mal, não adotou medidas rigorosas. Nós aplicamos máscaras, distanciamento social e proibimos eventos, mas só. Isso fez com que a doença se espalhasse numa velocidade muito maior do que nos países de lockdown, trazendo inclusive grandes críticas ao nosso país.

Porém, por uma sorte do destino parece que o descaso adotado por nossas autoridades deu mais certo do que se podia esperar. Entenda, não há mérito no governo por isso, não foi uma estratégia planejada nem através da lógica nem através do conhecimento científico, foi apenas sorte.

Nossos números, apesar de altos, não subiram tanto quanto era de se esperar. Talvez fatores como o clima e o hábito do brasileiro de tomar banhos todos os dias tenha ajudado, difícil dizer, mas o fato é que o pior parece ter passado.

Outra coisa importante de analisar é que o gráfico do Brasil começa a descer em agosto sem nenhuma interferência humana. Não houve lockdown ou medida do governo que tenha sido a causa da queda, como foi no caso da Europa. Dito isso é provável que a queda seja realmente reflexo de uma imunidade de rebanho crescente.

Há agora a preocupação das festas de final de ano aumentarem os números, mas eu acho pouco provável. A pelo menos dois meses bares e praias por todo o país já estão lotados de pessoas sem máscaras, e não acredito que o final de ano será muito mais complicado do que o que já estamos fazendo.

Atualizado em 17/11: No parágrafo acima eu claramente estava errado. Com a redução dos casos as pessoas deixaram de ter os cuidados básicos necessários para manter a coisa sob controle, e os números subiram.
Dito isso, acredito que o Brasil tinha atingido uma espécie de "imunidade de rebanho situacional", ou seja, dentro do padrão de comportamento que tínhamos até outubro, estávamos com a epidemia sob controle. O novo padrão mais relaxado adotado em novembro fez os casos aumentarem.
Com isso, são dois caminhos que eu consigo imaginar:
Se as pessoas derem um passo pra trás e voltarem aos cuidados que tinham até o final de outubro os números devem cair muito rápido, pois já tínhamos uma quantidade de pessoas imunizadas grande o suficiente para a situação ser calma dentro daquele modelo comportamental.
Caso as pessoas continuem relaxadas - não completamente sem cuidados, mas apenas com menos cuidados do que tinham - acredito que essa semana e talvez na próxima os números continuem altos, mas não crescentes, e então comecem a baixar novamente.

 

E o futuro, o que reserva?

Os números, até o momento tem sido animadores. Você pode não acreditar nos dados oficiais. Concordo, não se deve acreditar mesmo, porém o depoimento de pessoas que trabalham na saúde batem com os números. Todos aqueles com quem eu conversei afirmam que o pior foi em agosto e que agora está relativamente "bem calmo".

Atualizado em 17/11: As mesmas pessoas que afirmaram que o quadro estava calmo confirmaram o crescimento dos casos.

Sendo assim, mesmo que os números sejam maiores do que apresentados, a forma da curva deve ser muito semelhante à dos dados oficiais. Coloquei aqui uma previsão baseada nos gráficos extraídos do Worldometers e, se tudo der certo, antes do final de Janeiro (ou no máximo, na primeira semana de fevereiro) teremos uma situação bem calma mesmo que ainda não tenhamos vacinas.

Você pode discordar de mim, e você pode estar certo, mas eu torço para que eu esteja certo.

Atualizado em 17/11: Toda a pirâmide do gráfico acima foi construída dentro da situação de isolamento +uso de máscaras +uso de álcool em gel anterior a novembro. A redução desses cuidados fez com que os números subissem.
Considerando que, dentro do gráfico, até o final de janeiro a situação da pandemia seria praticamente resolvida (mantendo o padrão de distanciamento), essa subida repentina deve, na verdade, acelerar esse processo.
Continuo confiante que o fim da pandemia esteja próximo, mas acima de tudo alerto que todos os cuidados precisam ser tomados até o completo final da situação.
Mesmo que a pandemia acabe num futuro próximo ou surja uma vacina, pessoas continuarão morrendo até a erradicação, então continue saindo apenas para o necessário e tomando todas as medidas de segurança necessárias.

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