Meritocracia não é exatamente o que muita gente pensa...

Por Andrés Calil em 21 de Novembro/2020 às 11:05

Estamos em 2020 e vivemos na era da informação: A cada segundo milhares (milhões?) de novos textos são postados na Internet. Opiniões, notícias, análises, debates e discussões bombardeiam os leitores nos quatro cantos do mundo.

Juntamente com essa bagunça toda há muita falta de comunicação. A discussão de bolacha versus biscoito - para a língua portuguesa as duas palavras tem o mesmo significado - é uma sátira do que ocorre na Internet: Metade das discussões tem mais relação com erros de interpretação do que com divergência de opinião.

Se você perguntar para 100 pessoas o que é direita e o que é esquerda, terá 100 respostas diferentes. E se você perguntar para essas pessoas o que é meritocracia, é bem possível que a maioria das respostas seja "um sistema que vence quem se esforça mais". Essa resposta não poderia estar mais equivocada.

Há inclusive uma história em quadrinho muito difundida que nos apresenta esse erro!


Esse quadrinho do artista xtot, de 2015, apresenta uma versão completamente distorcida da meritocracia. Clique na imagem para ver a história completa.

Por outro lado, muitas pessoas à favor da meritocracia também estão equivocados. Eles afirmam que é possível ser rico se você se esforçar e que, quem é pobre, não se esforçou o bastante. Um absurdo sem tamanho.

Meritocracia não é uma fórmula mágica que vai fazer um pobre ficar rico se ele se esforçar muito. O nome disso é sorte.

Então, o que é meritocracia?

Meritocracia é simplesmente a premiação por resultados. Em uma escola, o aluno que acertar todas as questões em uma prova tira 10 enquanto o aluno que errar todas, tira 0. Isso é meritocracia.

Se o aluno que errou teve problemas pessoais, se ele não pode estudar por uma razão ou outra, se ele estava em coma no hospital, isso não tem relação com a meritocracia. O ideal é que nessas condições o professor dê ao aluno mais tempo e uma segunda chance, mas isso não não tem relação com a meritocracia.

Vamos pegar um exemplo comercial: Imagine um cabelereiro. Ele tem seu nível de habilidade em corte, seu marketing e seu público. A soma desses fatores é seu mérito, e o valor que ele vai cobrar por corte tem relação com esse mérito.

Então você vai ter desde um superstar influenciador que cobra 1000 Reais em um corte, até uma pessoa que realiza cortes de cabelo de 20 Reais sem sequer ter feito algum curso. Você pode até discordar que o corte do superstar valha 1000 reais, porém se ele consegue cobrar isso, não deixa de ser um mérito dele.

Ao mesmo o cabelereiro de 20, inserido num ambiente mais pobre, pode melhorar sua habilidade ganhando a preferência do público da região. Uma vez que ele se torne o preferido, pode passar a cobrar valores maiores. Ele provavelmente nunca vai chegar no 1000, mas com certeza terá uma melhora considerável em sua renda.

Você continua achando isso injusto? Então vamos aos...

Exemplos da não-meritocracia

Certa vez Marx escreveu "De cada um, de acordo com suas habilidades, a cada um, de acordo com suas necessidades". Esse é o conceito exatamente oposto à meritocracia.

Nessa realidade não meritocrática, ambos os cabelereiros, o de 1000 e o de 20, não poderiam mais cobrar o valor que o mercado lhes deu. O valor do corte de cabelo seria fixo, indiferente da sua habilidade. Ou, em um caso mais extremo, eles teriam que cobrar conforme a capacidade de pagar do cliente, igualmente sem relação com seu nível de habilidade.

Em um ambiente desses, ambos os cabelereiros passariam a cortar de qualquer jeito, pois a habilidade deles não teria relação com o ganho, o que remove o incentivo de se aprimorar cada vez mais.

Voltemos ao exemplo da escola: Imagine que metade da sala tirou 10 e metade da sala tirou 0, e que com base nisso o professor deu 5 para a sala inteira. Se você fosse o aluno que tirou 10, continuaria se esforçando tanto quanto antes? 

Existem relatos de que na União Soviética, dentro do conceito da não-meritocracia, a produção das fábricas caiu absurdamente. Os operários se tornaram preguiçosos porque não poderiam ser demitidos com base na falta de mérito. O estado então teve que colocar soldados armados dentro das fábricas para pressionar os operários a trabalharem com afinco para evitar escassez de produtos.

Mesmo assim sabemos que a escassez acabou acontecendo, o que arruinou completamente a URSS.

A não-meritocracia abaixa a qualidade dos serviços da sociedade.

Conclusão

A próxima vez que alguém disser que a meritocracia é injusta porque não dá chance aos pobres, explique que o problema não está na meritocracia.

A meritocracia não tem relação com as chances. O problema está na estrutura social que não prepara os jovens de forma igual. Esse problema não é relacionado em nada com a meritocracia e, a ausência da meritocracia na verdade agravaria esse problema.


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